Memória Paranapanema - Usina Capivara - Sr. João Batista de Freitas Gonçalves http://www.memoriaparanapanema.com.br/midia/JoaoBatista.mp4

João Batista de Freitas Gonçalves

"Meu nome é João Batista de Freitas Gonçalves. Nasci em 14 de junho de 1946. Sou paulista, de uma cidade chamada Ibirá, uma estância hidromineral que pertence à comarca de Catanduva.
Meu avô materno era português. Ele esteve na África e depois acabou vindo para o Brasil trabalhar cortando madeira. Era o “cara contra o meio ambiente”, cortando madeira para exportar para a Inglaterra. Meus avós paternos são de Alfenas, Minas Gerais. Eles vieram para essa região de Ibirá, numa pequena vila chamada Vila Ventura. Foi ali que papai conheceu mamãe. Foi onde se casaram e onde eu e meus dois irmãos nascemos. Somos três irmãos, todos aposentados na CESP.
Quando criança, tinha uma mina no fundo do quintal da nossa casa, no sítio. Minha origem é roça mesmo, e lá a gente brincava, fazia aquelas represinhas com espuma de carretel e até as linhas de transmissão. Mas, fazia por brincar...Tanto que fiz o curso técnico depois que já estava na CESP.
Antes disso, fiz um científico (como era chamado o ginásio naquela época) muito bem feito. Meu sonho era a Medicina e, apesar do meu pai ter o sítio, nossa origem era pobre, então não deu. Mas, tinha um padrinho meu, Hermes Dezan, de Votuporanga, onde a CESP tinha uma termoelétrica. Ele era vigilante e tinha um senhor engenheiro, Eraldo de Almeida, que gostava muito dele e falou:
- Hermes, e o teu sobrinho, que idade tem? Fala para ele vir para Votuporanga prestar um concurso porque vai sair vaga para operadores.
Meu padrinho me chamou e explicou tudo, mas eu ainda pensei: “Gente, fazer concurso? Deve ser carta marcada. Mas vou”. Fui, fiz o teste em Votuporanga e se passaram uns quatro meses... Nem fui atrás porque naquele tempo não tinha celular nem telefone perto. Aí, o cara do correio foi lá em casa com o telegrama dizendo para eu me apresentar em Bariri para o exame médico. Deu um arrepio em mim! Peguei o ônibus em São José do Rio Preto que era mais perto e fui para Bariri. No dia 10 de outubro de 1968 estava fichado na CESP (...).
Comecei como operador de subestação em Santa Fé do Sul, que fica na divisa do estado de São Paulo, perto do Rio Paraná. Fiquei lá durante um ano e surgiu uma vaga na construção de Chavantes, para onde fui depois. Mas, antes, quando estava no setor de operação do Tietê, já tinha feito estágio em Ibitinga e Barra Bonita, na eclusa. Nessa época, estava noivo da Verinha, minha esposa, e o encarregado de Votuporanga me chamou e falou que o Dr. Geraldo Brito, que era o engenheiro, queria conversar comigo e estava vindo numa condução me buscar porque estavam precisando formar uma equipe de operação em Chavantes.
A usina estava começando, preparando para começar os ensaios, que hoje chamamos de comissionamento. Pensei: “Mas, onde fica essa tal de Chavantes, meu pai do céu?”. E a CESP é como qualquer empresa, é tudo para amanhã, a condução está aí! Lembro que cheguei na Verinha e ela: “O que?”... Chavantes era o setor onde ficava a gerência, mas estavam desmontando ou montando um transformador, não lembro bem, e não pude ficar na nossa pousada, então fiquei num hotel provisório em Chavantes.
Começamos a construção e acompanhei o comissionamento de Chavantes, onde aprendi muito graças ao Dr. Marcondes Brito, que foi presidente da Petrobras. Lembro que ele tinha bronquite, usava uma bombinha, e falou para mim: “Moço, o senhor está entrando numa empresa excelente, vai depender de você. Bote a bunda lá no chão”. Ele era mineirão e falava nesses termos: “Vai acompanhar o pessoal para você aprender, porque você não sabe nada. Vai aprender e seja humilde”. Aquele era o tempo dos militares e lembro de um detalhe, quando ele falou: “Política aqui, daquele portão para fora!”. Foi dessas pessoas maravilhosas que Deus põe no caminho da gente e que me ensinou que era um menino bom. Afinal, que noção eu tinha de vida?" (Trechos da entrevista realizada em 29/08/2012)